Existe uma corrente de “economistas”* defensora da saída de Portugal (e dos outros países do Sul da Europa) do espaço económico que designam como zona Euro. Este pensamento encerra em si mesmo um conjunto alargado de disparates associado aos pressupostos errados com que a Economia é ensinada, que descrevo de seguida.

A moeda representa uma quantidade de trabalho(económico, não físico). Quando é emitida e trocada por uma quantidade trabalho, essa troca define em si mesma o valor da moeda. Por isso, quando  fôr novamente trocada por trabalho, noutro ponto do espaço e do tempo, vale a comparação entre o trabalho originalmente trocado e o trabalho que está a ser trocado agora. Por isso existe inflacção permanentemente, o valor do trabalho feito ontem é quase sempre inferior ao trabalho feito hoje porque a sua utilidade sofre uma depreciação – o que foi feito em 1973 num computador foi feito a esburacar cartões num computador com 64KB de memória, o que foi feito hoje foi a substituição de um contentor de 70 computadores de 4 GB de memória e 4 processadores.

O que é que isto tem a ver com o nome da moeda? Pois, nada. O trabalho feito hoje por um português vale o mesmo em euros ou em (novos?) escudos. O facto de valer poucos  euros é porque o trabalho médio do português vale muito menos que o trabalho médio do holandês ou do alemão. E como vale poucos euros, mas os portugueses acham que vale muitos, cria-se déficit.

Quando este déficit se dá no sector privado ou nas famílias, dá-se a falência. As pessoas têm que arranjar outros empregos ou outras formas de receber os mesmos euros trabalhando mais ou fazendo trabalho com mais valor. O problema é quando este déficit se dá naquela zona da economia que tem o poder de ir buscar dinheiro sem produzir trabalho, aqueles que o podem fazer com recurso à violência – o estado.  A vantagem de estar fora de euro reflecte-se na desvalorização automática que uma moeda local tem quando o estado tem um défice decorrente do gap entre aquilo que gasta e aquilo que produz. Como os funcionários públicos e os beneficiários de subsídios recebem na moeda local, cada vez que falta, imprime-se. O seu valor unitário baixa (obviamente) e recebem um valor menor recebendo a mesma quantidade nominal de moeda. Assim, corrigem-se as situações de défice. No privado, como as situações  de défice são temporárias por natureza, ter uma moeda local é irrelevante.

Por isso, o efeito de sair da zona euro pode ser feito simplesmente reduzindo os salários do estado e o volume de subsídios em moeda. Só. Não é preciso o desenvolvimento de dois teoremas, quatro corolários com dois mortais encarpados e dupla pirueta. É só isto. O problema é que a esmagadora maioria destes economistas defensores da saída do euro são professores de universidades públicas, ou seja, são parte interessada no défice do estado e, consequentemente, nenhuma solução que passe pela redução do seu salário é aceitável para eles embora, se levassem a deles avante, teriam essa redução e, com o recurso à violência para a cobrança de impostos, manteriam a sua posição relativa na economia nacional.

Agora, nada impede os funcionários públicos de saírem do euro. Se o estado português começasse a emitir títulos de dívida eternos com taxa e juro zero e a pagar aos funcionários e fornecedores com esses títulos, com o compromisso de os pagarem aos bancos pela cotação em secundário isso equivaleria a sair do euro onde precisamos e não sair onde não precisamos. O estado funcionaria apenas com os títulos de dívida eternos e todos os outros funcionariam com duas moedas, o euro e os títulos de dívida.

Por isto, fica aqui o meu apelo aos distintos professores de Economia e demais adeptos da saída do Euro. Força! Não esperem por mim. Não precisam de mim para sair, basta que peçam aos estado para serem pagos em títulos de dívida deste tipo e é um favor que fazem a todos. Eu prometo pagar impostos exactamente da mesma forma…

(*) quando entre plicas, deve entender-se o grupo de pessoas ligadas à Economia, com E maísculo

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